terça-feira, 10 de novembro de 2009

Copenhagen - o debate sobre o debate.


                                                       José Carlos de Azevedo

Excepcionalmente colo abaixo artigo do Dr. José Carlos de Azevedo, publicado em 12 de outubro passado no jornal "Folha de São Paulo". O eminente cientista brasileiro estará na próxima quinta-feira (12/11), em audiência pública da Comissão Especial do Código Florestal, na Câmara dos Deputados.

Nem ele acredita

JOSÉ CARLOS DE AZEVEDO
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ROGÉRIO CEZAR de Cerqueira Leite, estimado amigo desde os tempos do curso ginasial no Liceu Pasteur, em SP, sempre foi conhecido por cultivar a isenção e a seriedade, por preocupar-se com os interesses nacionais e por ser competente do ponto de vista científico.

Apesar disso, cabem as breves considerações que faço ao seu artigo “Ciência, opinião e aquecimento global” (“Tendências/Debates”, 23/9), na parte que se refere à correlação que diz existir, mas que não existe, entre mudanças no clima da Terra e o consumo de combustíveis fósseis. Quanto aos demais assuntos de que tratou, cabem elogios.

As considerações decorrem da suposição -não verdadeira- de que os atuais conhecimentos sobre o clima constituem uma ciência capaz de prever o futuro, explicar o passado e ter os outros atributos próprios do conhecimento científico. Isso é agravado pela laúza estridente dos que fazem previsões em computadores com “modelos climáticos”, que são falhos e valem tanto quanto as feitas com baralhos do tarô.

As teorias climáticas conhecidas são incompletas, não constituem ciência e é razoável admitir que os estudos em curso no Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear), sob a direção do competente físico J. Kirkby, levarão à esperada formulação científica.

O Cern, que é o maior laboratório de física existente, cujo acelerador de partículas tem 27 km de extensão, fez consórcio com as melhores instituições científicas, cerca de 30, para detalhar as descobertas feitas no Instituto de Pesquisas Espaciais da Dinamarca sobre a forte correlação existente entre radiação cósmica, passagem do Sistema Solar pela galáxia local, manchas solares, campos magnéticos do Sol, ionização, múons, nuvens baixas e clima.

Cerqueira Leite fala no número de cientistas que discordam do aquecimento “antropogênico” e diz serem “agregados de nomes pouco conhecidos”, o que não é correto. O “petition project” foi assinado por 31.478 cientistas norte-americanos identificados um a um e foi apresentado pelo antigo presidente da National Academy of Sciences e chairman da American Physics Society, Frederick Seitz -que Cerqueira Leite conhece, pois deixou trabalhos relevantes na física do estado sólido, o que é do seu conhecimento.

Nem o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na siga em inglês) acredita mais nessa versão do CO2, pois afirma (IPCC 2007-I, pág. 10) em seu último relatório que “a maior parte do acréscimo da temperatura média global observada desde meados do século 20 é muito provavelmente devida ao aumento observado da concentração de gases do efeito estufa”.

Em outras palavras, nem o IPCC acredita no que dizem que ele disse, mas ele diz que não disse. Mudanças no clima sempre houve e haverá. Platão afirmou no “Timeu” que o aquecimento e o resfriamento ocorrem ciclicamente, e Teofrastus disse coisa semelhante. Nos últimos 20 mil anos, a Terra aqueceu e esfriou nove vezes, comprovadamente.

A concentração atual de CO2 (380 ppm) é uma das menores de todos os tempos, pois chegou a 1.500 ppm no Carbonífero, a 1.800 ppm no Jurássico, a 7.000 ppm no Cambriano. Na época de Platão, ninguém dirigia SUVs.

Em junho de 2009, o Heartland Institute, instituição não governamental, publicou o importante rlatório “Climate Change Reconsidered, the Report of the Nongovernmental Panel on Climate Change”. Ao longo de 897 páginas, o relatório analisa o que diz o IPCC, que é uma entidade governamental, e, em nove áreas relacionadas ao clima, excluída a econômica, discute, do ponto de vista científico, as questões climáticas.

É escrito em linguagem comedida, respeitosa e baseado em muitas centenas de referências científicas, no que também esse relatório difere dos textos econazistas de áulicos do IPCC. Até onde pude ler, não sobrou nada do IPCC, órgão governamental cujos integrantes, em parte ou no todo, são pagos pelos seus governos.

No final deste ano, provavelmente sob inverno inclemente, reunir-se-ão em Copenhague os representantes de países filiados ao IPCC para definir um novo protocolo, que substituirá o de Kyoto, que não deu em nada.

Querem salvar a vida no planeta Terra, mas deverá ser mais um festival pago pelo contribuinte. Seus integrantes não deixarão de fazer ponto no Tivoli, o famoso parque de diversões de Copenhague.

Lá estarão ONGs, diplomatas, políticos e representantes de governos filiados ao IPCC, todos preocupados com a vida na Terra e a anunciada e temida extinção do Homo sapiens, caso não controlem o tal aquecimento, apesar de o planeta Terra estar esfriando há três anos e ter permanecido constante a sua temperatura nos dez anos anteriores.

O IPCC faria melhor se cuidasse do Homo stultus, pois é este que ameaça a vida na Terra.
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JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA AZEVEDO , 77, é doutor em física pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA). Foi reitor da UnB (Universidade de Brasília).

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