quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O entrevistado é visita - trate-o bem.

Não sou jornalista. Não tenho as qualidades necessárias e menos ainda a formação e o treino. Mas, leitor compulsivo e compulsivo escrivinhador, me atrevo a opinar por minha própria conta neste bloguinho que graças ao avanço da ciência está à minha disposição, assim como tantos outros que fazem a voz de milhões de cidadãos em todo o mundo. Hoje, só se cala quem quer, ou precisa, ou é pago pra calar.

Atento que sou à política, acompanho com muita atenção os debates e entrevistas com candidatos, tanto na TV quanto nas rádios e, por vezes, na internet. Algumas coisas dá pra perceber com clareza sem, com isto, estar ultrapassando os limites das sandálias. Em debate, o mediador controla, promove o equilíbrio, mantém os termos previamente acertados. Em entrevista, o entrevistador pergunta e pede esclarecimentos, mesmo que sejam impertinentes, invasivos, impróprios, ou, inversamente, bajulatórios. O entrevistador não tem direito à réplica, tem oportunidade de pedir esclarecimento ao que lhe parece confuso.

Em anos e anos assistindo religiosamente aquele que foi, antes de se tornar oficialesco, o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira, por onde passaram os mais importantes jornalistas e figuras públicas, o Roda Viva, jamais vi um entrevistador-militante. Mesmo quando o sujeito é um militante dos mais engajados, na qualidade de entrevistador o militante despe a camisa de sua causa e procura, no máximo, extrair do entrevistado alguma contradição ou "derrapada" da qual possa tirar algum benefício. Mas não o confronta, nem sequer o enquadra, não o constrange.

Ocorre porém, nos cafundós do Brasil e, às vezes, em praças mais evoluídas, que antes de iniciar a entrevista o entrevistador veste-se, da botina ao boné, com a farda militante e encara o entrevistado como um sujeito a ser abatido em favor da causa, transformando assim, a entrevista, em caça ao inimigo. Se o entrevistado perceber que está sendo caçado e tiver calma e lucidez suficientes naquele momento, pode em poucas palavras amansar o bicho-militante com ironia, pondo-o no seu lugar de entrevistador. Se, porém, resolver arreganhar os dentes e devolver o ataque, a entrevista se transforma em ringue de onde ninguém sairá ileso.

Isto tudo, é claro, se refere ao recente episódio envolvendo o jornalista Demóstenes do Nascimento e o candidato ao Senado, economista, professor João Correia Lima Sobrinho, no Acre. O Demóstenes, que pode até ser um bom repórter, atuou desde o incício como militante, tentando controlar as respostas do entrevistado, inibindo-o em seu direito à crítica. Ora, não importa se as críticas do João são ou não infundadas, ele que vá se entender com o eleitor. O João, por sua vez, poderia, serenamente, fazer o entrevistador entender o seu papel, mas escolheu promover o antagonismo e, com isto, elevou o entrevistador a debatedor que, despreparado, iniciou a agressão verbal quando acusou o entrevistado de DESEQUILIBRADO, o que não deixa de ser um insulto. Daí em diante, a razão virou fumaça.

É claro que o corporativismo, também misturado com o militantismo, saiu em defesa do jornalista-militante. Seria demais esperar o contrário. Mas os políticos... Estes não tem por que deixarem de se solidarizar com o João. Mesmo seus adversários, pois o que está em jogo neste momento, mais que a disputa momentânea e a equidade no tratamento que se dá aos políticos, é a liberdade de expressão. O entrevistado não pode ser obrigado a dizer aquilo que o entrevistador acha razoável ser dito. Se, por acaso, cometer alguma bobagem, que a população o penalize e pronto. A entrevista é para expor e esclarecer, não para censurar, conter, reprimir, constranger.

Que deste evento lamentável resulte um aprendizado. Na forma de entrevistado, até o inimigo é visita. Cumpre ao entrevistador os deveres de anfitrião.

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