quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Acre pobre e rural resiste a Marina Silva. Será?

Em um texto muito interessante, publicado e referenciado em vários blogs, o importante jornalista Caio Junqueira, do Jornal Valor Economico descreve o momento eleitoral do Acre para concluir (título do artigo) que "O Acre pobre e rural resiste a Marina". É um estranhamento (royalties para a Marina) que o jornalista explica aludindo em primeiro lugar ao rigor das multas ambientais sofridas pelos produtores rurais, inclusive os pequenos, ao longo do tempo,  que emblematizariam a ação da Marina no Minstério do Meio Ambiente. Tais multas ensejam a rejeição no campo.

Em segundo lugar o jornalista menciona a posição contrária da candidata à pavimentação da rodovia BR-364, que integra os dois vales do Estado, no trecho entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul e à construção das hidrelétricas do rio Madeira, no Estado vizinho de Rondônia.

Pronto. Identificada com as punições do IBAMA e com o atraso nas hidrelétricas, a senadora com toda a fama nacional e internacional não consegue alcançar o José Serra que nunca pôs os pés no Acre e tem uma candidatura local aparentemente inviável.

Será mesmo isto que segura o vôo da Marina em solo acreano? Pensemos:

Desde que foi eleita vereadora, a Marina percebeu que havia um enorme campo de atuação vago. O ambientalismo assim como outros ismos precisa de símbolos, de ícones, de referências vivas que façam a interlocução com a sociedade. O assassinato de Chico Mendes projetou o tema amazônico, colocando o Acre no protagonismo da luta ambiental internacional de tal modo que dificilmente passaria sem ser apropriado. E foi. Pela Marina, principalmente, que em seguida foi eleita Senadora e eficientemente conquistou imensa notoriedade, com seu jeito pacifista mas firme, sua aparência frágil mas decidida, suas palavras suaves mas cortantes. A partir daí, Marina deixou de ser uma cidadã acreana para ser cidadã do mundo, aprendeu, foi Ministra, aprendeu mais ainda e mais ficou conhecida e mais se afastou do Acre. Orgulha o Acre e os acreanos, mas não mais faz parte de seu dia a dia, de seus problemas, de seus debates. A sua agenda tem mais a ver com o aquecimento global do que com a viabilidade da reserva extrativista, ou dos assentamentos do INCRA, ou da violência urbana, ou das falhas do sistema de saúde.

Enquanto isso (está no outro texto do jornalista Caio Junqueira - pecuária apóia liderança dos vianas), o petismo local teve que governar e lidar com as demandas da administração que não são apenas as do ambientalismo. São as dos serviços essenciais e as da geração de oportunidades de trabalho para uma população crescentemente urbana, saida das universidades que se muiltiplicaram e remanescente de políticas agrárias dos anos oitenta e noventa. Por necessidade objetiva, o governo petista em doze anos deu as mãos a setores produtivos que não constavam da agenda ambientalista.

A sabedoria do petismo-vianismo foi realizar, de um lado, a aproximação dos setores da indústria e da agropecuária sem lhes exigir capitulação, sem transformá-los em derrotados ideológicos. Com isto até desconstruiu o discurso da oposição. De outro, foi manter o ambientalismo simbolizado na florestania, alargando seu conceito. Dou exemplo: Não se fala mais em neo-extrativismo que era pedra de toque do desenvolvimento projetado no final dos anos noventa. Outro: A usina de álcool ganhou o nome de álcool verde e isto bastou para que fosse integrado à florestania. Outro: A ligação com o Oceano Pacífico no contexto da IIRSA, sendo esta a Geni dos ambientalistas da Amazônia internacional.

Hoje, o que está no horizonte é o processo de industrialização do Acre tendo como foco a exprtação de produtos através da ZPE que deverá se instalar no prazo de 12 meses. Asseguro que isto também não estava nos planos iniciais da florestania.

Aliás, este alargamento do conceito é que vem determinando internamente, pelo que se sabe, áreas de fricção entre os titulares da florestania. Os "Marinistas" estão vendo que aos poucos a florestania de tão larga não é a mesma. Eles começam a não se reconhecer no projeto em curso. 

E a Marina com isto? Ora, a Marina que só é a nossa Marina no imaginário, no orgulho,  na auto-estima, na admiração, pois de resto ela é a Marina do mundo, perde votos objetivos, votos consequentes em relação à melhoria das condições locais de vida.

Dizer que são os agricultores que a repelem é pouco. Até porque 70% da população acreana reside na zona urbana e, além disso, não consta que a pesquisa do IBOPE tenha sido realizada na zona rural.

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