domingo, 6 de junho de 2010

Uma surfista destrambelhada na onda ambientalista.

O jornalismo assim como outras profissões gera seus ícones. São aqueles que alcançam tal prestígio que pairam acima de qualquer julgamento. A partir deste ponto se dão o direito de dizer qualquer bobagem sem culpa. O próprio nome basta para conferir legitimidade ao que escreve, mesmo que seja uma asnice. É o caso da Jornalista Miriam Leitão que nos últimos anos, espertamente, vem transitando entre análises econômicas e ambientais, talvez vislumbrando que neste deserto de pensamento crítico possa alcançar mais prestigio.

Esta introdução é apenas para situar a jornalista em sua falsa e apressada análise sobre o Código Florestal cuja mudança está a depender do Congresso e do relatório do Deputado Aldo Rebelo a ser divulgado na próxima semana.

Trato especificamente do artigo que a jornalista publica no jornal O Globo sob o título “Código do Erro.” Como nos ensina o Reinaldo Azevedo, um vermelho e azul com a dita cuja. Vermelho ela, eu azul.

Por que o Código Florestal tem que ser mudado? Dizem que é para ter mais área para a agricultura. Especialistas da USP lançarão um estudo mostrando que o Brasil tem 61 mil hectares de área já desmatada de alta e média produtividade agrícola e que não está sendo usada. Proteger topo de morro, encostas íngremes e mata ciliar é impossível ou a coisa sensata a fazer?

Mentira e ignorância já no primeiro parágrafo. A mentira é que a mudança no código é para “ter mais área para a agricultura”. Ora, a mudança é para não ter menos área para a agricultura, já que na forma como está obriga à recomposição áreas secularmente utilizadas com agricultura, especialmente no sul e sudeste, ou, na Amazônia, convertidas nos termos da lei vigente. A ignorância está no número que forneceu - 61 mil hectares não utilizados. Ignorante que é, provavelmente se assustou com a grandeza dos números e tascou um mil hectares, quando se trata de MILHÕES de hectares. A boba errou por mil vezes o número que lhe deram. Ademais, a questão do topo de morro não é de possibilidade ou de sensatez, mas de viabilidade e de técnica. Nem todo topo de morro tem a mesma inclinação, nem a mesma cultura, nem o mesmo solo, nem a mesma técnica, nem a mesma ancestralidade de ocupação.

O deputado, pelo que disse ao GLOBO no domingo, está convencido de que a lei não pode ser cumprida e que os produtores devem ter uma moratória de cinco anos para se adaptar a ela. A lei tem 50 anos. Meio século pelo visto não foi tempo suficiente para os produtores respeitarem a lei.

Outra mentira. A Lei tem 50 anos, mas desde então já foi modificada várias vezes e é destas modificações que trata o Deputado Aldo Rebelo.

Se o deputado Aldo Rebelo não apresentar alguém que foi preso pelo “crime” de tirar uma minhoca da beira de um rio, então seu argumento contra o atual Código Florestal será apenas mais uma das suas caricaturas. Como é caricatural a ideia de que quem luta pela preservação do meio ambiente é contra o desenvolvimento do país ou está à serviço de potências estrangeiras.

Alguém precisa ensinar algo de ironia à jornalista. Quando o deputado se refere à minhoca no rio apenas sinaliza, ironicamente, sobre os excessos praticados por agentes públicos com base em uma legislação equivocada. Exemplos existem aos montes. De onde ela tirou esse trade-off entre luta pela preservação e desenvolvimento? Este tipo de acusação é pura mistificação para isolar quem não come na mão das ong’s estrangeiras.

Ele quer provar que a lei é radical, protege exageradamente o meio ambiente. Precisará convencer que em 1965 a consciência ambiental era uma obsessão radical do governo militar.

Outra falsidade. Em 1965 o Código era totalmente diferente do que é hoje. Aliás, foi com base nele que LEGALMENTE as áreas da Amazônia foram desflorestadas. A jornalista ou mistura as coisas para que possa concluir falsamente ou realmente não conhece nadinha do Código.

Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, explica que além disso é inconstitucional ter uma lei estadual mais flexível que uma lei federal:

— A lei estadual só pode ser diferente se for para ser mais rigorosa. Além disso, baseado em que vai se flexibilizar? Dizem que vão ouvir a ciência. Vão ouvir a ciência conveniente. O que é necessário é ouvir amplamente os cientistas de diversas correntes e áreas sobre os riscos dessas mudanças.

Recorre ao argumento de advinhe quem, para questionar a mudança na Lei. De um pesquisador (sênior é só para dar status) de uma ONG. Não sei se o tal pesquisador é constitucionalista, mas deve ser, senão jamais acusaria a Assembléia Estadual de Santa Catarina de aprovar algo do gênero, não é mesmo? Voltemos. Apropriando a asneira do outro a Miriam Leitão acusa o deputado de ouvir a ciência “conveniente”. Não sei qual é exatamente a outra, mas deve ser aquela que não surge na EMBRAPA, mas nos seminários que ela não frequenta (é importante demais para isso) mas dos quais recebe informes.

O erro principal da mudança do Código Florestal é se basear na tese de que é preciso anistiar o que foi feito errado. Isso dá um sinal de que é bom desrespeitar a lei e que bobo é quem a respeita. Quem fez tudo direito será prejudicado quando seu vizinho que desrespeitou a lei for anistiado.

Mentira. O que foi feito não foi feito errado em seu espaço e tempo. À época era legalmente permitido, estimulado, financiado e assistido pelo estado. Querem agora tratar estas pessoas à luz da nova Lei invertendo os termos do princípio da anterioridade.

Como se vê, até se tornar jornalista ambiental com algum mérito, Mirian Leitão precisa fazer mais do que recolher migalhas que sobram nos seminários e artigos de ongueiros, por mais senior’s que eles sejam.

2 comentários:

  1. Nielsen O. M. Braga7 de junho de 2010 10:41

    Míriam Leitão não está isenta de dizer bobagens, mas tem o rótulo 'rede globo' que funciona como 'selo de qualidade' ('qualidade' bastante duvidosa, aliás). Tudo atualmente é tratado de forma superficial, infelizmente todos se acham expert em alguma coisa, mas não capturam a essência de coisa alguma, na verdade. Tudo está banalizado, num futuro próximo espero que a 'Era Lula' seja retratada nos livros de História como 'os anos da banalidade e dos comentários irrelevantes', em que nada realmente aconteceu além do absolutamente previsível em se tratando de política brasileira (corrupção, dólares em cuecas, mensalão, mensalinho, impunidade para os grandes, severidade para os pequenos...)

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  2. Prezado Valter,

    essa onda ambiantalista brasileira está ficando cada vez mais engraçada (isso para não dizer perigosa). Vamos engessar a Amazônia e esquecer do resto, o modelo produtivo que se dane.
    Vale lembrar que em entrevista a Rádio CBN Marina Silva rasgou elogios à neo ambientalista Mirian Leitão (que acha que pode dar opnião sobre tudo que acontece). Então vamos deixar cada macaco no seu galho.

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