sábado, 17 de outubro de 2009

IDH Superestima Bem Estar em Áreas Carentes


Divulgo trecho de um artigo do Professor Doutor José Jesus Souza Lemos, da Universidade Federal do Ceará, publicado em um jornal de São Luiz - MA.

"Como “régua” de aferição do conceito de Desenvolvimento Humano a ONU criou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que utiliza aquelas três ancoras com ponderações iguais (1/3) na sua construção. O IDH varia de zero a um, sendo que a escala ascendente mostra padrões mais elevados de desenvolvimento humano.


Em locais onde aqueles indicadores são medidos com rigor o IDH é excelente. O IDH terá dificuldades em aferir bem-estar onde as estatísticas são de difícil coleta. Por exemplo, nos rincões do Nordeste, da Amazônia, da África, da Ásia, da América Latina, existem pessoas que nascem, vivem e morrem sem ter qualquer registro. Gente extremamente carente e que por isso tende a viver menos. Como não há registro das suas idades elas não aparecerão nas estatísticas de óbitos e por isso o indicador esperança de via ao nascer tende a ficar super estimado nesses locais.

Elevada taxa de matriculas por si só, em economias carentes como aquelas, não atestam padrão de qualidade. Crianças e adolescentes de regiões pobres têm dificuldades em aprender matemática, ciências e na própria leitura e interpretação de textos na sua língua. Portanto, este indicador também introduz viés para cima ao IDH. O PIB per capita, por sua vez, tem distribuição por demais assimétrica nessas áreas. Por isso o indicador também não conseguirá aferir bem estar com rigor nessas economias.


Assim, o IDH de 0,813 que a ONU estimou e acaba de divulgar para o Brasil, provavelmente estará super estimado. Veja-se que ainda assim nossa posição no ranking mundial é muito ruim (75ª posição em 182 possíveis). No Brasil, as regiões Norte e Nordeste “puxam” para baixo o IDH. “Puxariam” mais ainda se houvesse a possibilidade de incorporar com rigor os seus indicadores."



COMENTO
 
Fui aluno do Professor Lemos no Mestrado da UFC. Recentemente nos reencontramos e até ensaiamos a possibilidade de trabalharmos juntos na formulação de um indicador de desenvolvimento mais adequado à Amazônia. Lemos é um craque nesta área. Seu livro "Mapa da Exclusão Social no Brasil: Radiografia de Um País Assimetricamente Pobre" é o melhor que conheço na abordaegem dos indicadores de pobreza e está livremente ´disponível em http://www.lemos.pro.br/
 
Neste artigo o mestre retoma sua insatisfação com o IDH. De fato o termômetro da ONU tem problemas insanáveis. Sua grande vantagem, talvez única, é ser extremamente simples e fácil de trabalhar. Certamente por isso é tão prestigiado.
 
Penso que no Brasil deveríamos relativizar seu peso nas decisões políticas. Já vi programas que o tomam como corte para a aplicação de recursos. Um êrro. Precisamos estimar é os níveis de pobreza a partir da aferição de disponibilidades relativas de bens e serviços que significquem variados graus de exclusão social, tendo como pano de fundo o desenvolvimento sustentável. Aliás, a própria ONU, ao estabelecer os objetivos do milênio deveria ter criado um indicador sintético e adequado. Para isto, decididamente, o IDH não serve. Portanto, cautela com o IDH. No Brasil, o buraco é mais embaixo.

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