quarta-feira, 31 de março de 2010

Os ombros são largos, mas se a carga é torta...

Hoje os dois principais candidatos à presidência da república fizeram suas despedidas. A Dilma, da Casa Civil, o José Serra, do governo de São Paulo. Ambos falaram e deram o tom.

Pelo que li dos discursos de um e de outro, a Dilma não se incomoda de continuar sendo marionete do Lula. Até prefere. Parece acreditar que não existe mesmo, que não precisa ser diferente, que não precisa ter personalidade. Aposta na popularidade do seu “senhor”, na máquina do partido e nas alianças indistintas para se eleger. Se ancora no PAC, mesmo que menos de 15% tenha sido realizado efetivamente. Apóia-se no batente alto do padrinho para se levantar. Considera-se parte de uma era, não reivindica protagonismo. Sinceramente, penso que até para ser poste tem limite. Não dá pra iniciar uma pré-campanha com Lula dizendo “se quiserem me derrotar...”. Isto é uma absurda demonstração de fraqueza da candidata. Lula, afinal, não é candidato.

Sou levado a pensar que a dificuldade da Dilma está justamente nisto. Não acho que o eleitor, noves fora os 30% que votam em quem Lula mandar, esteja disposto a eleger um avatar. Ou a Dilma existe ou muito dificilmente alcançará o Serra na campanha eleitoral.

Do outro lado, Serra sai enfrentando uma greve fortemente e, mais do que isto, descaradamente, potencializada pelo partido adversário. Sai dizendo que no seu governo tem aumento quem tem mérito para ter aumento. Sai com impressionante apoio popular apesar de todos os problemas que enfrentou recentemente devido às enchentes em todo o estado. Sai afirmando sem contestação que não é conivente com a corrupção e os escândalos. Sai situando seu governo em seu papel constitucional – garantir a vida, os bens e a liberdade. Sai dizendo que serviu ao interesse público e não à máquina partidária. Eis um candidato que pode ser derrotado, mas será ELE um candidato.

Desconfio que o presidente Lula terá muito trabalho para eleger sua candidata. Há um dilema nesta história. Ou descolam a Dilma do Lula e apresentam-na como ela é com o risco de não agradar, ou consagram a lulodependência e arriscam afrontar a inteligência do eleitor.

Este é, aliás, um dilema que não freqüenta somente a agenda da corrida presidencial. Em outras esferas e situações o dilema se repete. Creiam, nem sempre ombros largos dão conta de carregar uma carga torta.

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