quarta-feira, 3 de novembro de 2010

As cores dos mapas dentro dos mapas.

Os resultados do segundo turno das eleições geraram um mapa eleitoral publicado em vários jornais que, aproveitado por jornalistas e blogueiros (eu no meio) deu margem a comparações com mapas (abaixo) de analfabetismo e de pobreza. A alta correlação entre estes mapas possibilita interpretações diversas. Cada um que se responsabilize pela sua. Trato aqui de duas e, ao final, opino.




Interpretação 1.

A blogueira Adriana Vandoni recorrendo à tese de um amigo pesquisador cujo nome deixa de informar  explica que "Quanto menos tempo de estudo, mais concreto é o pensar. Não existe o pensamento subjetivo, não existe o longo prazo. Apenas o imediato, o acordar, tomar café, sair, voltar, comer e dormir. Já a pessoa com mais tempo de estudo aprende a raciocinar de forma mais ampla e percebe a subjetividade dos fatos. Quanto menos estudo a pessoa tem, mais fisiológica é sua forma de pensar."

Daí, conclui a blogueira que havendo correlação entre o eleitorado da Dilma e o analfabetismo, como parece gritante nos mapas acima, se poderia afirmar que a Presidente foi eleita por pessoas que pensam mais concretamente e valorizam as próprias exigências fisiológicas. É como dizer que o analfabeto vota com o estômago e, por isso elegeu a Dilma. Por outro lado, possuindo uma capacidade de pensar mais elaborada, os eleitores de maior grau de instrução valorizam a subjetividade dos fatos. Em resumo, os mais instruídos votam com o cérebro, portanto, mais conscientemente.

Estabelecida esta dicotomia, a parte mais ao norte e nordeste (em vermelho nos dois mapas) elegeram a Dilma.

Interpretação 2.

Hoje, em artigo publicado em vários veículos no Brasil, o sociólogo e presidente do Vox Populi, Marcos Coimbra tenta desfazer a versão apontada de que o Brasil atrasado (norte e nordeste) venceu o Brasil desenvolvido (centro-oeste, Sudeste e Sul). Para isto ele faz o exercício correspondente. Divide o eleitorado em dois, ou seja, norte e nordeste X centro-oeste, sudeste e sul, soma os votos de cada um e conclui que a Dilma ganha nos dois. Pronto. O Brasil seria assim plotado todo de vermelho (abaixo) e fica então evidenciado que não se pode atribuir à pobreza e ao baixo nível de instrução a vitória da Dilma.




Interpretação 3 (a minha).

Antes de frequentar a academia, aprendi com o poeta maranhense João do Vale que "dentro de um morcego tem um menorzinho e, se procurar direito, dentro do outro tem outro morceguinho."

Ora. O que faz o Marcos Coimbra é brincar com o leitor manipulando o universo do eleitorado. É evidente que no corte macro a Dilma ganha e o mapa fica vermelho. Quanto mais profundo o corte, mais aparecem as diferenças. Por isto, no corte municipal se pode ver o azul prevalecendo espacialmente nas regiões centro-oeste, sul e sudeste. Além disso, é com cortes iguais que se pode fazer comparações adequadas.

O que se pode afirmar sem medo de errar é que, considerando o nível municipal de análise, a Dilma foi vitoriosa na maioria dos espaços em que também se verificam as maiores taxas de analfabetismo e de pobreza (mapa abaixo). Inversamente, Serra ganhou na maioria dos espaços em que se verificam os menores índices de analfabetismo e de pobreza. Ponto.

Mapa da Pobreza



É possivel extrair dai que a eleição da Dilma se deve à ignorância e à pobreza? Esta é uma conclusão que não me permito, embora possa deduzir dos mapas que, majoritariamente, nos municípios de maior pobreza e analfabetismo foi ela que ganhou a eleição. Para dizer em que medida estes grupos foram importantes na sua eleição seria necessário um exercício estatístico simples mas trabalhoso que não farei.

Afirmar porém, como faz Marcos Coimbra a partir da divisão do território em dois, que o Brasil é todo vermelho, como diria o deputado acreano Moisés Diniz, seria a versão dos ganhadores.

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