terça-feira, 6 de março de 2012

A política é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar...

    Os trechos abaixo são os primeiros parágrafos da primeira carta (capítulo) do livro "Palavras Cínicas", do escritor português Albino Forjaz de Sampaio. A julgar pelo que vejo e vi até hoje, penso que a primeira carta deveria ser enviada juntamente com a confirmação de inscrição a todo candidato às eleições com uma errata: "Onde lê-se vida, entenda-se política".

" Meu amigo:
     Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que te hei-de falar? Da vida
? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom - tolice - não venhas. Aqui, para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.
     Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar.
     Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas.
     Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres do que o amor.
     A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, que ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos duma mulher que se entrega. É menos um. Sê pois forte como o diamante e como o ódio."

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